Entrevista com presidente da Casa das Palmeiras

Entrevista exclusiva com Dr. Jean Pierre Muller

Por Arnaldo Santtos, jornalista e psicólogo

No final do Simpósio Multidisciplinar de Saúde Mental, ocorrido nos dias 24 e 25 de novembro, em Maceió, o Dr. Jean Pierre Muller Hargreaves nos concedeu uma entrevista exclusiva.

Dr. Jean Pierre Muller é atual presidente da Casa das Palmeiras, local criado por Dra. Nise da Silveira com o objetivo de evitar a reinternação de egressos de hospitais psiquiátricos.

A instituição foi fundada em 1956 e uma das primeiras para o acompanhamento de psicóticos (principalmente) fora da internação, como dizia a doutora Nise, um território livre, onde se utilizam as atividades
expressivas e o afeto.

Ele conviveu com ela durante o período de 1987 até 1994. Voltando a participar das atividades da Casa das Palmeiras desde 2007.

—Dr. Jean, qual era o diferencial do tratamento que a Dra. Nise dispendia aos clientes dela, como ela costumava a se referir?

Ética, respeito à singularidade do outro, e grande interesse no mundo interno (inconsciente). Essa era a práxis básica da Dra. Nise da Silveira, especialmente no tratamento dos esquizofrênicos. A Dra. Nise iniciou o seu trabalho no hospital do engenho de dentro, tendo assumido o serviço de terapia ocupacional, por se recusar a aderir às praticas agressivas da época: eletroconvulsoterapia, coma insulínico e a frieza das internações.

Ela era a grande defensora da liberdade, com a experiência de um período na prisão. Ser preso por suas ideias se assemelha a ser internado por seus delírios (ideias), dizia ela. Nise sempre lutou pelas portas abertas dos hospitais e por isso criou a Casa das Palmeiras em 1956, como uma saída do hospital.

O afeto, o respeito, a seriedade, com que ela lidava com o sofrimento de seus clientes, norteavam a sua práxis. Ela também estudava profundamente varias áreas do conhecimento, além da psicologia e da psiquiatria, como arte, filosofia, mitologia, alquimia e literatura.

Em suma tudo que diz respeito a uma compreensão da pessoa, seja ela considerada normal ou enfermo. Como ela gostava de parafrasear Antonin Artaud,”os inumeráveis estados do ser.”

—Como a Dra. Nise trabalhava com os pacientes, qual era o método?

A prática de Dra Nise da Silveira foi se desenvolvendo guiada pelo seu respeito ao indivíduo singular que estava internado com um diagnóstico psiquiátrico e que tinha grande dificuldade para lidar com o mundo dito da realidade. Assim como o mundo dito da realidade tinha dificuldade para lidar com esse indivíduo tão diferente, tão singular.

Iniciando com a terapêutica ocupacional de Herman Simon e Paul Sivadon, tendo estudado os clássicos da psiquiatria e da psicopatologia fenomenológica, do estudo de Freud. Passando pela produção de imagens no atelier com a ajuda de Almir Mavignier. Essa era o dia a dia dela, estudar e pesquisar, sempre.

Vendo o resultado das atividades expressivas e do ambiente de afeto do atelier em indivíduos internados há muito tempo e considerados com embotamento afetivo e passando pelo encontro revelatório com a psicologia analítica de Carl Jung, ela abriu a possibilidade de estudar o mundo interno através das imagens, seja pintura, escultura ou modelagem.

Em suma, ela adotou um caminhar que prosseguiu até o seu último suspiro, a incansável alagoana era movida por seu desejo, por seu amor e seguiu o método de seu coração.

—Como ela atuava com os clientes?

Ela criou um espaço acolhedor, aberto, para que o indivíduo pudesse se exprimir. Ela criou pontes, espaços abertos em que o individuo pudesse se sentir seguro para, aos poucos, sair de seu mundo, do mundo em que estava mergulhado, ou do mundo que criou para conseguir sobreviver, ou seja, do delírio, ou do vaio em que se encontrava.

Ela destacava sempre de que é se exprimindo que o ser se constitui, toda expressão tem o seu valor e o permitir que ela evolua, é permitir um movimento. A Dra. Nise acreditava em uma tendência auto curativa da psique.

Dizia que, quando as palavras falham, a expressão via imagens, via as mãos, via o corpo, via a música, permitem uma evolução, um movimento.

O afeto e a presença funcionam como catalisador “O afeto catalisador”, que permite e estimula esse movimento.

—Como ela conseguia isso?

Divulgando as suas ideias, ela criava um núcleo de pessoas de diversas áreas (heterogeneidade), que tinham interesses comuns (o estudo do inconsciente), que trabalhavam voluntariamente (sem interesses capitalistas), e que acabavam funcionando como um coletivo, sem dar importância maior ao cargo ou formação (horizontalidade). Isso criava um ambiente que tirava o cliente do jugo da psiquiatria, tão pesado e alienante.

—O que ela falava sobre os medicamentos? Ela ministrava para os pacientes?

Ela não tinha interesse pelo uso dos medicamentos, a prática dela era outra. Na Casa das Palmeiras os clientes podem ter o seu psiquiatra fora da casa. Tinha uma visão critica da indústria farmacêutica e dos diagnósticos. Não administrava diretamente, mas também não impedia que estes se tratassem com fármacos. Na Casa das Palmares quando achamos que uma medicação não está adequada, ou está prejudicando a evolução comunicamos com o médico que trata o cliente. Mas há clientes que não fazem tratamento.

—E o que mais o chamou a atenção no trabalho da Dra. Nise?

Como ela tratava o cliente, no sentido de sempre buscar o que de melhor tinha em cada um deles, a sua singuralidade. Isso era o melhor dela. Não existia um método pronto para ninguém. Ela sempre dizia que era necessário enxergar onde outro existe, onde está a singuralidade dos doentes.

—O senhor viveu muito tempo com ela. E isso foi há 30 anos. Fale mais sobre como ela vivia no dia a dia com os clientes, como ela costumava chama-los?

Bom, me considero um privilegiado em ter tido o prazer de conviver com a Dra. Nise. Era uma pessoa extraordinária.

As pinturas e os trabalhos que ela reuniu foram de fundamental importância para que seu método de trabalho pudesse ser reconhecido no mundo inteiro. Ela também teve a oportunidade de conversar com Carl Jung, com quem trocou várias ideias. Imagino como ela, ainda, com 21 anos, enfrentou os colegas e professores por ser a primeira mulher a concluir e exercer a profissão de médica.

Apesar de ter tido uma brilhante vida e estudar bastante, ela não fazia planos para nada. As coisas iam ocorrendo e ela simplesmente fazia tudo da melhor maneira possível. Sempre refazendo tudo que era possível, refazer e refazer tudo e procurando estudar tudo sobre cada pintura, cada traço, através de muita pesquisa.

Para se ter uma noção de sua dedicação, ela morada no hospital. Lia e relia os manuais de psiquiatria e não gostava de seguir nenhuma norma, ela queria saber o porquê, sempre por que.

Era uma inconformada com tudo, principalmente se o assunto fosse o sofrimento de um paciente. Ela queria descobrir tudo sobre o paciente, como ele podia se livrar do sofrimento. Ela discordou, e muito, das formas de tratar os pacientes, principalmente àqueles tratamentos agressivos, de tortura.

Ela costumava dizer que se num primeiro momento os clientes foram torturados por agressividade, através dos choques, e depois através da medicação, que, para ela era uma camisa de força química, porque a pessoa não se expressava, virada robô, ficava dopada.

—Mas que métodos ela utilizada para chegar ao inconsciente dos pacientes?

Ela estava bastante consciente quanto à forma que Freud adotava, ou seja, fazer com que o paciente falasse e com isso seu sofrimento pudesse ser dissipado. Ela percebeu que esse método servia, mas não tão bem para os esquizofrênicos e por isso começou a adotar ferramentas, como o pincel, papel, madeira e barro, instigando os doentes a expressar os sentimentos, a angustia, a tristeza, enfim, o sofrimento interno.

—E como ela descobriu a importância do trabalho dela junto com os clientes e com relação aos colegas psiquiatras?

Em relação aos clientes, através dos resultados, a melhora, a saída de estados de isolamento, o melhor contato com o mundo e consigo mesmo, a produção de imagens de uma grande riqueza que estavam escondidas em seu interior, e o aprendizado que esses nos propiciam por estar tão mergulhados no inconsciente.

Em relação aos psiquiatras, a relação foi de embate, de luta com uns, e de colaboração e aprendizado com outros. Na verdade Dra. Nise nunca deu grande valor ao status, ao rótulo: psiquiatra, psicólogo, artista, etc. Ela dizia que, o que importa é a pessoa.

A psiquiatria em si, é uma área de muitas correntes de pensamento, de lutas e discussões, sempre tendendo unilateralmente par o lado da biologia ou da psicologia, e também da contestação.

Na verdade a loucura questiona sempre. Como dizia Jung, estamos engatinhando nesse conhecimento, e existe ainda um abismo entre essas posições, o objetivo seria um dia integrá-las com respeito.

—E como é ou como era a Casa das Palmeiras, mudou alguma coisa no desenvolvimento do método adotado pela Dra. Nise?

A Casa das Palmeiras é um laboratório, uma outra cena como diria Freud, está livre, não está subordinado a outras instituições como queria a sua criadora, evolui guiada pelos ensinamentos da mestra, e pelo desejo dos colaboradores, alguns que beberam da fonte, e outros que aproveitam a sua passagem pela casa para viver essa experiência.

A Casa das Palmeiras é um ponto de referência necessário para os clientes, na esquizofrenia, o ponto de referência é necessário. É um espaço em poder ser, o que podem ser. Não há cobrança nem rótulos, o que se convencionou chamar psiquiatria fica em suspenso. O que importa é cada um. É conseguir estar onde o ser existe, onde o ser está, em toda a sua singularidade. E respeitando esse ser, sem nenhuma discriminação, sem botar em primeiro lugar um diagnóstico, um rótulo, ou seja, permitir que esse ser se reorganize.

A Casa das Palmeira é a evolução do trabalho de Dra Nise da Silveira, ainda é uma instituição de vanguarda, de resistência. É a persistência do desejo de sua criadora, que continua plantando sementes de luz nesse mundo tão obscuro.

E ela que nasceu em Alagoas, esse simpósio voltou a ter o objetivo de plantar mais algumas sementes em seu próprio solo e espero que o simpósio contribua para que as ideias e a práxis dela sejam multiplicadas.

https://www.saudeemtempo.com/single-post/2017/11/29/Semin%C3%A1rio-Multidisciplinar-de-Sa%C3%BAde-Mental-tem-como-tema-central-avida-e-obra-da-psiquiatra-alagoana-Nise-da-Silveira

 

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

top